Feliz Ano Novo!

  
Que o próximo ano seja cheio de belas imagens e palavras que encantam – sempre acompanhadas de um bom café! 😉

Feliz 2016!!

Anúncios

¡Nueve!

Nueve

Dizem que quem fala português tira de letra o espanhol. Vou logo dizendo que é mentira. Quando viajo para fora do país, eu tento, juro que tento, falar a língua do lugar. Nem que sejam algumas palavrinhas. Acho que as pessoas ficam mais receptivas quando veem seu esforço. O problema é que eu me viro no inglês e arranho um francês, mas pro espanhol, sou uma negação. Nem portunhol eu consigo.

O bom de Buenos Aires é que dá pra falar português, que muita gente entende. Mesmo assim, há alguns meses, quando cheguei à cidade com minhas amigas Aline e Cris, adotei ‘gracias’ como minha palavra preferida. Era “gracias” pra cá, “gracias” pra lá, de vez em quando um “¿Hola, que tal?” Sem falar no básico “buenos dias”. Cheguei a, no final da viagem, formar frases inteiras – curtas, mas inteiras – num portunhol fraquinho aprendido numa viagem anterior à Espanha. E foi só. Nem mais uma palavra. Ou melhor, só mais uma.

Um dia estávamos no quarto do hotel, já tarde da noite, conversando e tomando Malbec, quando ouvimos um homem gritando e batendo desesperadamente numa porta, como se estivesse preso. Conforme o desespero do homem aumentava, crescia também o nosso. Cris chegou a sair de baby-doll no frio corredor do hotel, mas respondeu aos meus apelos e voltou para o quarto. Até que Aline falou:

– Márcia, você que fala mais espanhol, liga pra recepção e fala que tem alguém preso aqui em cima.

Gelei. Tensa, pensei: Oi? Acho que ‘gracias’ , ‘buenos dias’ e ‘¿nos puedes sacar una foto por favor?’ não vão me ajudar nesse momento. Mas o jeito era ligar. Peguei o telefone e disquei o número da recepção.

– Recepción.

Congelei por 5 segundos, tentando, em vão, pensar no que dizer na língua do recepcionista. Até que resolvi começar:

– Boa noite. Nós estamos ouvindo um barulho vindo do andar de cima, parece que tem alguém preso no banheiro.

Assim, em português. O rapaz entendeu. Respondeu um “Sí” e eu, animada, resolvi continuar:

– É no nono andar.

Aí acho que foi demais para ele. Perguntou em português:

– Qual andar?

E eu, feliz por finalmente poder falar de igual para igual, lembrando o quanto havia valido a pena aquela viagem à Espanha, respondi, firme e segura:

– ¡Nueve!

Desliguei o telefone aliviada por saber que o homem preso no andar de cima seria salvo graças ao meu espanhol fluente. Ufa. Chegamos a ouvir um funcionário do hotel conversando com o homem preso, mas não conseguimos entender – porque o som estava abafado, e só por isso.

No dia seguinte, Aline chegou a perguntar na recepção o que tinha acontecido. Perguntou em português e o rapaz respondeu em espanhol. Parece que o homem havia ficado mesmo preso no banheiro. Parece.

Nunca saberemos com certeza.

***

Márcia S.

O louco mundo dos sonhos

Sonhos

Eu sonho muito. Acordada também, mas falo de quando estou dormindo. Bem, já ouvi falar que todo mundo sonha, mas nem todo mundo lembra o que sonhou. O fato é que eu sempre lembro – e com detalhes.

Essa noite, por exemplo, sonhei que uma tia estava fazendo aniversário e havia chamado a família inteira, menos eu. Encontrei a tia na rua e fui perguntar o motivo. Enquanto ela me explicava, eu nadava numa piscina olímpica gelada e no escuro. Super normal. E olha que eu nem sei nadar. Mas no sonho, é claro, nadei melhor que Michael Phelps.

Nos meus sonhos tudo pode acontecer. Já fui prima do William Bonner e amiga íntima da Angélica. Já namorei o Woody Allen e vi Antonio Banderas vestido com um pijama verde musgo combinando com a cor das paredes de um banheiro.

Eu já sonhei em inglês e francês. Para quem gosta de viajar, o bom de sonhar é que você pode ir a qualquer lugar sem sair da cama. Londres, Florianópolis, Bélgica, Fortaleza. O ruim é acordar e perceber que… não saiu da cama.

Meu marido diz que eu poderia escrever um livro com meus sonhos. Um livro surrealista. Porque lá no mundo de onde meus sonhos vêm, relógios derretidos são o que há de mais normal.

No mundo dos meus sonhos, eu poderia subir a Torre Eiffel e apreciar, admirada, a bela vista da Baía de Guanabara. Porque Paris é a cidade mais bela do mundo – ou você não acha o máximo caminhar pelo calçadão de Copacabana?

Depois de um almocinho rápido com Sarah Jessica Parker, eu estaria pronta para voltar ao meu trabalho de trapezista no Banco do Brasil, usando meu modelito básico pink com ombreiras. Quentin Tarantino, meu colega de trabalho, divertiria a todos com suas piadas e sua imaginação fértil até o fim do expediente, quando sairíamos para um happy hour na companhia de Gertrude Stein e toda a geração perdida – afinal, estamos em Paris, não se esqueçam.

Mais tarde, cansada, voltaria para minha casa em Salvador. Dormiria e começaria a sonhar – porque sonhos podem, sim, ser metalinguísticos. Sonharia que sou carioca, tenho um casal de filhos e que meu amigo Quentin, quem diria, é um sucesso no mundo do cinema.

Porque os sonhos são sempre assim, loucos.

***

Márcia S.

Outono

20140923_120204 cópiaQuando eu era criança não gostava do outono. Achava que ele roubava o verão de mim. Explico: eu amava o verão porque era sinônimo de férias e, mais tarde, de viagem para a praia. Era minha estação preferida, sem dúvida. Mas meu aniversário é dia 23 de março e o verão terminava dia 20 (ou 21, nunca sei). Tão perto! Eu queria fazer aniversário no verão, ora bolas! Mas o outono chegava e roubava isso de mim.

Para falar a verdade, tirando essa raiva passageira (esquecida assim que eu começava a receber presentes de aniversário), naquela época o outono nunca teve muito a minha atenção. Talvez por implicância, por ter sido sempre mau comigo. Amava o verão, no inverno tinha mais férias e a primavera trazia as lindas flores – além de ser um sinal de que o verão estava logo ali, virando a esquina. Mas e o outono? Além do meu aniversário, não via nada de bom.

Mas eu fui ficando mais velha e o calor foi ficando mais forte, até chegar a um ponto quase insuportável. Saber que a tendência é piorar é desanimador. Aos poucos fui me encantando com o outono e com o pequeno alívio que ele traz depois de um calor intolerável. Não estou dizendo que passei a detestar o calor com todas as minhas forças, não é isso. O verão ainda é sinônimo de férias e viagem com a família, então não tenho como não gostar. Mas agora consigo ver as belezas e benefícios do outono. Coisas que vêm com a maturidade.

Como fotógrafa, nem preciso dizer que a luz mais linda é a do outono, a que rende os melhores ensaios. Nem precisava de mais nada para eu virar fã da estação. Mas há alguns anos virei corredora e vi que o pior para mim era treinar no verão. Quando estava treinando para a meia maratona, as corridas longas de janeiro acabavam comigo. O jeito era acordar às 5:30 no domingo para chegar ao local do treino às 6:30 e correr os 12 ou 14 km antes do sol esquentar muito (porque chegar, ele também chegava bem cedo). Imaginem que maravilha foi quando o outono chegou. Tinha sol, mas para quem acordava cedo também tinha um ventinho gostoso, que deixava qualquer treino menos cansativo.

O outono passou a ser minha estação preferida (sorry, verão). Se antes eu não via nada de bom na estação, agora vejo que ela nos ensina a ver beleza e a ter esperança nas adversidades. As folhas amarelam e caem e depois nascem outras, cheias de vida e tão lindas quanto. São os ciclos essenciais da vida, as fases por que passamos. O outono é metafórico. Sou fã.

***

instagram: @fotografiaprosaecafe

twitter: @fotoprosaecafe